Os desafios da inculturação dos povos na Igreja e as celebrações afro como forma de valorização da cultura negra

 

O Brasil é formado por pessoas com as mais diferentes caracteríscas e vindas dos mais variados cantos do planeta. Há mais de 500 anos, a nação brasileira vem sendo erguida sob a influência de muitas culturas, entre elas, a negra. É inegável a contribuição da raça africana em todos os aspectos que circundam os valores e costumes dos brasileiros. Ao mesmo tempo, são incontestáveis a resistência e o preconceito vivenciados por afrodescendentes ao longo da história.

 

No mês em que se celebra o Dia Nacional da Consciência Negra (20/11), data da morte de Zumbi dos Palmares, é propício lembrar que, no tocante à religião, esses aspectos também estão presentes. Por um lado, o reflexo de uma cultura escravocrata que por séculos se sobreassaiu no Brasil; por outro, os esforços para a inculturação dos povos na Igreja e a rica contribuição da cultura negra nas diversas manifestações religiosas e pastorais.

 

“Deus nos fez diferentes. Não maiores ou menores. O que nós queremos é ser respeitados”, enfatiza padre Roberto Ferreira, conhecido pelas belas celebrações afros que costuma realizar. Por meio de cantos, ritmos, vestes e cores, ele contribui, na Igreja, para que a cultura negra seja valorizada, frente aos 300 anos de escravidão e uma abolição desorganizada que impediu, durante décadas, a inserção dos negros na sociedade.

 

“Ao som do pandeiro e de atabaques, e com vestes que remetem ao colorido dos tecidos da África, saudamos os paroquianos com o tradicional axé, que seria o shalom hebraico, a saudação de paz, harmonia e comunhão. Os ritos enfatizam a história da terra, o canto de dor, os alimentos típicos. Até mesmo o canto de aclamação traz a melodia africana, lembrando os tambores das tribos”, explica.

 

Assim como outros sacerdotes em todo o Brasil, padre Roberto encontrou no Concílio Vaticano II (1965) e em outros documentos e iniciativas da Igreja Católica para a inclulturação dos povos a abertura para a realização dessa e de outras celebrações no “estilo afro”. Por iniciativa própria, buscou se informar, se aprofundar, e optou por resgatar e evidenciar a cultura de origem dos seus ascendentes também em outros momentos, como na sua Ordenação, presidida por Dom José Maria Pires (Dom Zumbi).

 

Origem das celebrações

O surgimento dos textos da Missa dos Quilombos (1981) foi uma tentativa de valorização da cultura negra por meio das músicas e danças num contexto celebrativo que não interferia no rito romano, mas evidenciava na memória pascal cristã o processo histórico de luta, morte e resistência desses povos. Esse trabalho contou com o gênio poético dos bispos Hélder Câmara e Pedro Casaldáliga e dos músicos Milton Nascimento e Martin Coplas. Na mesma linha da valorização da cultura afro numa região brasileira é celebrada a Missa Conga, sobretudo nas festas de Nossa do Rosário e São Benedito. Neste caso, trata-se do rito romano levemente adaptado para acolher cantos, danças, vestes, instrumentos musicais e apresentação de objetos próprios da cultura.

 

Pastoral Afro-Brasileira

A Pastoral Afro-Brasileira está presente em todas as dioceses do país. Ela foi aceita como organismo oficial da Igreja do Brasil em 1998, mas começou a ser idealizada na década de 1970, quando um grupo de sacerdotes negros elaborou um documento para a Conferência de Puebla, realizada em 1979, no México. Já em 1981, foi criado o Grupo de União e Consciência Negra. O próximo passo foi dado com a Campanha da Fraternidade de 1988, cujo tema “Ouvi o Clamor deste Povo” foi focado na população afrodescendente.

 

Em 2003, graças ao documento 85, a Pastoral passou a integrar a estrutura da CNBB, como espaço de ação e conscientização da Igreja e da sociedade para a realidade da população afro-brasileira. Esse organismo constitui uma forma de atuação em relação aos direitos fundamentais da cidadania para todos, sobretudo para aqueles que vivem à margem da sociedade, em virtude de sua cor e etnia. É também uma forma de combate ao racismo, ao preconceito, à xenofobia e outras formas de discriminação.