“Cultivar e guardar a criação”(Gn 2,15)

A Igreja Católica realiza todos os anos a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal. Sempre abordando temas atuais, a cada ano propõe uma transformação social e comunitária. Podem ser desafios sociais, econômicos, culturais ou religiosos da realidade brasileira. “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” é o tema da Campanha para a Quaresma em 2017.

O lema é inspirado no texto do livro do Gênesis 2,15: “Cultivar e guardar a criação”. Abordando a realidade dos biomas brasileiros e as pessoas que neles moram, deseja despertar as comunidades, famílias e pessoas de boa vontade para o cuidado e cultivo da casa comum. Cuidar da obra saída das mãos de Deus deveria ser um compromisso de todo cristão. A Campanha tem como objetivo geral: “Cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho”.

Biomas são conjuntos de ecossistemas com características semelhantes dispostos em uma mesma região e que historicamente foram influenciados pelos mesmos processos de formação. Os biomas brasileiros sofrem interferências negativas desde a chegada dos primeiros colonizadores ao Brasil, com a extração do pau-brasil usando, no início, a mão de obra escrava de indígenas e, mais tarde, dos africanos. No Brasil há seis biomas: Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga e Pampa. Neles vivem povos resultantes da imensa miscigenação brasileira.

Um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, o clima é mais ou menos uniforme, e a formação tem uma história comum. Admirar a diversidade de cada bioma é criar relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que nele vivem.

Cultivar e guardar nascem da admiração! A Campanha da Fraternidade deseja, antes de tudo, levar à admiração, para que todo cristão seja um cultivador e guardador da obra criada. Tocados pela generosidade e bondade dos biomas, seremos conduzidos à conversão, isto é, a cultivar e a guardar.

A depredação dos biomas é a manifestação da crise
ecológica que pede uma profunda conversão interior. “Entretanto, temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, frequentemente se omitem das preocupações com o meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus”, afirma Dom Leonardo Steiner, secretário geral da CNBB.

A Igreja Católica, há algum tempo, tem sido voz profética a respeito da questão ecológica. Neste início do terceiro milênio, ter uma população de mais de 200 milhões de brasileiros, sendo mais de 160 milhões vivendo em cidades, gera sérias preocupações. O impacto dessa concentração populacional sobre o meio ambiente produz problemas que põem em risco as riquezas dos biomas brasileiros.Falando à humanidade através da Carta Encíclica Laudato Sí, o Papa Francisco nos faz refletir acerca do que está acontecendo em nossos dias e os riscos que corremos de destruirmos a casa que Deus nos deu para morar, o planeta Terra.“Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial de uma existência virtuosa”. (LS, n. 217)

A reflexão sobre os biomas e os povos originários recebe uma rica iluminação da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja. É preciso que a constatação das riquezas e dos desafios ligados ao tema da Campanha da Fraternidade 2017 seja levada à ação a partir de uma reflexão serena e profunda dos ensinamentos da tradição cristã. É importante que cada comunidade, a partir do bioma em que vive, e em relação com os povos originários desse bioma, faça o discernimento de quais ações são possíveis e, entre elas, quais são as mais importantes e de impacto mais positivo e duradouro.

À luz da fé, as reflexões desta Campanha da Fraternidade querem interrogar todos os cristãos sobre o significado dos desafios apresentados pela situação atual dos biomas e dos povos que neles vivem.