No mês em que se comemora o Dia das Crianças, elas mostram seu olhar sobre Vila Velha e a Praia da Costa

 Subir em árvores, soltar pipa, andar de bicicleta pelas ruas. Diversões simples de antigamente ficam cada vez mais difíceis nas grandes cidades. Quanto maiores, mais parecem esquecer a existência das crianças e a importância de espaços de convivência.

As gêmeas Maitê e Lara Basto Castello, 8 anos, acham Vila Velha uma cidade muito bonita, movimentada e com muito comércio. Por morarem perto do mar, têm o privilégio de passear de bicicleta ou de patins no calçadão da praia. Mas, ao olhar para a cidade, o que se vê são prédios crescendo em meio ao emaranhado de ruas asfaltadas, calçadas mal planejadas e uma série de problemas típicos das grandes cidades, onde crianças não têm vez. Até o mar fica prejudicado. Por falta de tratamento de esgoto, a Praia do Ribeiro e a Prainha de Vila Velha são locais impróprios para o banho.

São Paulo, a maior cidade do Brasil, em uma reportagem publicada no UOL, é criticada por especialistas em educação, arquitetura e saúde. Eles destacam os males que atingem principalmente as crianças. A maioria delas, fora do horário escolar, fica confinada nos apartamentos e condomínios em que moram. “É assustador como esse modo de vida é doentio para o desenvolvimento físico, psíquico e intelectual”, comenta a psicóloga Beatriz de Paula Souza. “Se a criança vive muito confinada, ela chega ávida por espaço na escola, mas não pode desfrutá-lo. Aí fica indócil na sala de aula”, acrescenta.

As gêmeas Maitê e Lara gostam de morar em Vila Velha, mas solicitam melhorias para a cidade

Trânsito

Um dos problemas do confinamento das crianças ocorre devido aos riscos do trânsito. Os pais ficam com medo de deixá-las circular sozinhas pelas ruas. E há motivo para isso: de acordo com o Ministério de Saúde, entre os casos de mortes provocados por acidentes de trânsito, incluindo atropelamentos, um terço é de crianças de até nove anos. No Espírito Santo ocorrem mais de 29 óbitos para cada 100 mil habitantes, acima da média nacional. E em Vila Velha, a Praia da Costa é o bairro com o maior número de acidentes.

As gêmeas Maitê e Lara reclamam do trânsito, principalmente por causa dos engarrafamentos. No município, há mais de 100 mil carros, 30 mil motos e apenas 800 ônibus realizando o serviço público. O excesso de carros também provoca outro problema: aumenta a poluição do ar, já comprometido pelo pó preto, resultado da mistura das partículas de minério de ferro e carvão que passam pelo Porto de Tubarão.

 

Educação

Com apenas 9 anos, Samuel lamenta que outras crianças de sua idade não tenham acesso à educação

 

Entre os serviços públicos destinados às crianças, a educação é uma prioridade. Ou deveria ser. “A educação precisa melhorar; ter mais escolas públicas e elas deveriam ser melhores”, diz Gabriela Merçon Peçanha, 9 anos. Samuel Belo Baldi, também de 9 anos, concorda: “Vila Velha tem crianças que não têm escola, isso é injusto”.

A percepção de Gabriela e Samuel está correta. Entre 135 escolas do ensino fundamental, 79 pertencem à rede pública e 56 são particulares. Com isso, a cidade realmente não garante o ensino fundamental para todas as crianças. Em 2010, 13,4% daquelas entre 7 e 14 anos não estavam estudando.

Nas escolas, os espaços e o tempo destinados para atividades livres são reduzidos. “A liberdade que as crianças tinham de fazer explorações com seus colegas não existe mais. Na infância, a necessidade de movimento e expansão é evidente”, destaca Isabel de Barros, pesquisadora do programa Crianças e Natureza do Instituto Alana, na reprotagem do UOL. “Confinadas, elas logo se cansam quando têm a oportunidade de realizar atividades ao ar live, não têm resistência física e pouca coordenação motora”.

Para Bianca, de 11 anos, há necessidade de priorizar o atendimento à crianças na saúde

 

Saúde

Outro serviço público essencial aos pequenos é o acesso à saúde. “Deveria haver mais hospitais públicos, e assim como há prioridade para idosos, deveriam dar prioridade às crianças. Saiu até uma reportagem de uma criança que morreu porque demorou o atendimento”, destaca Bianca Pitta Sartoretto, 11 anos.

A situação da saúde em Vila Velha demonstra a dificuldade dos órgãos públicos de atenderem bem a população. No início da década, o município possuía 163 estabelecimentos de saúde entre hospitais, pronto-socorrospostos de saúde e serviços odontológicos, mas apenas 28 eram públicos. Enquanto a população com maior renda conta com 135 estabelecimentos privados e a possibilidade acesso a consultórios particulares, os mais pobres ficam com poucas opções de atendimento. Apesar disso, a rede municipal de serviço de saúde de Vila Velha tem conseguido manter quase a totalidade das crianças menores de um ano vacinadas e protegidas das doenças mais graves.

 

 

 

Desigualdade social

A baixa qualidade e a limitada oferta de serviços de escola e saúde no munícipio se tornam mais graves por causa da desigualdade social. Vila Velha, com uma população de mais de 470 mil moradores, é a segunda cidade mais populosa do estado.  O Índice de Desenvolvimento Humano é de 0,8, considerado elevado. No entanto, mais de 60 mil vilavelhenses moram em favelaspalafitas e aglomerados sem qualidade de vida. A cidade tem o maior número de favelas no Espírito Santo, sendo Barramares a maior do estado, com mais de 12 mil habitantes. São locais de moradia hostis para as crianças, pois mesmo em casa não possuem as condições básicas para uma vida digna.

 

Gabriela gostaria que a cidade fosse mais segura para que ela e outras crianças pudessem brincas nas ruas como no tempo de seus pais

Insegurança

 

A desigualdade social costuma ser apontada como uma das causas do aumento da criminalidade e da insegurança. Em 2011, Vila Velha ficou em 9º lugar no estado entre os municípios com maior índice de homicídios: 60,4 para cada 100 mil habitantes, e em 79° lugar entre as 5.570 cidades brasileiras.

O medo dos pais faz aumentar o confinamento das crianças em seus apartamentos e condomínios. Elas perdem a liberdade de brincarem nas ruas e acabam assimilando o medo dos pais. As gêmeas Maitê e Lara consideram que há lugares perigos em Vila Velha. “Deveria haver mais policiais para ter mais segurança e as crianças poderem brincar e correr nas ruas, como era no tempo dos nossos pais”, reivindica Gabriela Merçon Peçanha, 9 anos.