A exemplo do Santo, o Papa mostra em ações a verdadeira missão de um cristão no mundo

Filho de um rico comerciante da cidade Assis, na Itália, nascido em 1182, o jovem Francisco gostava de festas e de se divertir com seus amigos, sendo eleito o “rei da juventude”. Converteu-se e assumiu uma vida de pobreza, tornando-se um dos santos mais queridos entre os católicos. Seu amor à natureza o tornou o padroeiro dos animais e do meio ambiente, festejado no dia 4 de Outubro.

Filho de imigrantes italianos, nascido em 1936 na Argentina, mais de 750 anos depois do santo de Assis, o jovem Jorge Mario Bergoglio se formou como técnico químico e chegou a pedir sua namorada, Amália, em casamento. Ele garantiu que, caso ela não aceitasse, se tornaria padre. Mais que isso, tornou-se sacerdote, bispo, cardeal e, em 2013, o primeiro papa a se inspirar em Francisco de Assis, admirado e querido por cristãos e não cristãos do mundo inteiro. Desde então, vem mostrando com suas atitudes como o santo amigos dos pobres e da natureza agiria nos dias de hoje.

Votos de pobreza
“Não esqueça dos pobres”. Esse foi o conselho que o arcebispo de São Paulo, Dom Cláudio Hummes, deu para Dom Bergoglio logo após ser eleito papa, ainda na Capela Sistina, em Roma. O Papa revela que essa foi uma das suas motivações na escolha de seu nome: “Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco. Depois, enquanto o escrutínio prosseguia, pensei nas guerras, e assim surgiu o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa. [Francisco] é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre… Ah, como eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!”.

A preocupação com os necessitados também se reflete no seu jeito pobre de viver. Jesuíta, ordem religiosa que professa votos de pobreza, ele é conhecido por um estilo pessoal despojado e frugal de viver. Durante seus anos como cardeal em Buenos Aires, vivia num pequeno e simples quarto atrás da Catedral Metropolitana. Bergoglio sempre usou o transporte público, como metrô e ônibus, além de cozinhar a própria comida e lavar suas roupas. Eleito papa, continuou a usar seu crucifixo de cardeal, que é de aço, e não de ouro, e também optou por manter os sapatos totalmente pretos, em vez dos tradicionais calçados vermelhos.

Francisco dispensou a limusine papal blindada para comparecer a um primeiro encontro, no dia seguinte à sua eleição, preferindo um veículo comum, e espantou a todos ao pagar pessoalmente a conta do hotel onde se hospedou para o Conclave, hotel pertencente à própria Igreja Católica. Dias depois de eleito, surpreendeu o telefonista de uma ordem jesuíta em Roma, ao ligar pessoalmente querendo falar com um padre amigo. O atendente, como nunca outro papa fez ligações telefônicas diretamente, respondeu: “Você é o novo Papa? Ah sim, e eu sou Napoleão!”.

A simplicidade de Francisco
O modo de vida do Papa Francisco é coerente com o santo de Assis. O jovem e rico italiano surpreendeu o mundo ao voltar-se para uma vida religiosa de completa pobreza. Seus seguidores tinham como missão a pregação itinerante, diferente dos demais religiosos de seu tempo, que costumavam viver em mosteiros.

Sua vocação era inspirada em uma passagem do evangelho de Mateus: “Ide, disse o Salvador, e proclamai em todas as partes que o Reino do Céu está aberto. Vós recebestes gratuitamente; dai sem receber pagamento. Não leveis nem ouro, nem prata nem cobre em vossos cintos, nem um alforje, nem uma segunda túnica, nem sandálias, nem o cajado de viajante, pois o trabalhador merece ser sustentado. Em qualquer vila em que entrardes procurai alguma pessoa digna, e hospedai-vos com ela até partirdes. E quando entrardes em uma casa, saudai-a; se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne para vós a vossa paz”.

Francisco não usava sandálias e, em suas perigrinações, também não utilizava a ajuda de uma mula ou jumento para seguir fielmente as palavras de Cristo. Com isso, desenvolveu uma profunda identificação com os problemas de seus semelhantes e com a humanidade do próprio Cristo.

A paroquiana Tariza Campos destaca a atenção pelos necessitados. “Nossa Igreja, desde os primeiros séculos, faz opção pelos pobres e pecadores, não apenas aqueles que são carentes de necessidades materiais mas todos os pobres, cada um com suas misérias. São Francisco de Assis viveu na radicalidade do Evangelho de Cristo e o Papa Francisco tem vivido, não após o pontificado, mas toda sua vida, mostrando em suas atitudes e falas como viver à altura do Evangelho”. Ela conta que a equipe de perseverança da comunidade Santo Antônio está trabalhando as catequeses do Papa e resgatando a história dos santos da Igreja. “Todos conseguem se conectar aos textos, adultos, joves adolescentes, crianças, porque a linguagem do Papa é a mesma de São Francisco, é a linaguagem do amor, e o amor é simples e puro, porque o amor é o próprio Deus”, finaliza.

Proteção do meio ambiente
São Francisco foi transformador quando afirmou a bondade e a maravilha da Criação num tempo em que o mundo era visto como essencialmente mau, e quando amou todas as criaturas chamando-as de irmãos. Dante Alighieri disse que ele foi uma “luz que brilhou sobre o mundo”, e para muitos ele foi a maior figura do Cristianismo desde Jesus. Sua posição como um dos grandes santos da cristandade começou quando ele ainda era vivo e permanece inabalada. Foi canonizado pela Igreja Católica menos de dois anos após falecer, em 1228.

Na homilia da missa inaugural de seu pontificado, o Papa reiterou o exemplo de Francisco de Assis de respeitar todas as criaturas de Deus e o ambiente em que vivem. Na ocasião, o Santo Padre fez um apelo aos governantes e a todas as pessoas para que cuidem do meio ambiente. No dia 18 de junho de 2015, lançou a Encíclica Laudato si’ sobre o cuidado com a Casa Comum, em que faz duras críticas à devastação ambiental, ao modelo de desenvolvimento vigente e à falta de responsabilidade com os mais pobres. Propõe uma Ecologia Integral e uma conversão e educação ecológicas. Em outras palavras: que as nações se desenvolvam sem destruir o que é de Deus.

Rina da Rocha Fávaro Coutinho, servidora pública federal, devota de São Francisco, tem em sua casa um cantinho especial com mais de 50 relíquias do santo. “Alguns deles com muito afeto comprei pelos lugares que conheci, outros meus familiares e amigos me presenteiam. Essas lembranças são inestimáveis!”, exclama. Ela recorda que desde a sua infância a figura e a simplicidade de São Francisco de Assis sempre a tocaram. “Desde criança eu cantava a Oração da Paz no Colégio Marista. É maravilhoso poder aclamá-lo em minha vida”, acrescenta.

Em 2014, ela contraiu malária durante uma viagem a Manaus e ficou internada durante 15 dias em estado grave. Em tratamento no hospital, pediu ao marido para buscar em casa a imagem do santo italiano, abençoada pelo Papa Bento XVI, quando esteve em Roma. “Recorri a São Francisco de Assis, junto ao Pai, e fiquei curada. Foi uma luta, mas com fé eu recuperei a minha saúde”, conta.

Inclusão e justiça social
Quando ainda passava por um período de hesitação, Francisco de Assis saiu pelos campos nos arredores, e ao entrar em uma clareira ouviu o som do sino que os leprosos, na época excluídos pela sociedade, deviam usar para indicar a sua aproximação. Ele tinha repulsa deles, mas logo se viu frente a frente com o homem doente. Nesse momento, desceu de seu cavalo e cobriu o homem com seu próprio manto. Espantado consigo mesmo, olhou nos olhos do outro e viu sua gratidão e, enquanto ele mesmo chorava, beijou aquele rosto deformado pela moléstia. A partir desse momento, passou a se interessadar cada vez mais em ajudar os pobres.

Tal como o santo lavava os pés dos leprosos, Bergoglio ganhou notoriedade em 2001, quando ainda era cardeal na Argentina, ao lavar os pés de 12 aidéticos em visita a um hospital. Anos depois, em 2007, declarou: “Vivemos na região mais desigual do mundo, a que mais cresceu e a que menos reduziu a miséria. A distribuição injusta de bens persiste, criando uma situação de pecado social que grita aos céus e limita as possibilidades de vida mais plena para muitos de nossos irmãos”.

Como papa, constantemente surpreende o mundo com sua rotina de estar mais próximo das pessoas carentes e de moradores de rua. Em abril, foi inaugurada a Lavanderia do Papa Francisco, em Roma, para que imigrantes e pessoas sem teto possam lavar e passar suas roupas. Administrada por voluntários, encontra-se em uma das sedes da organização católica Comunidade de Sant’Egídio. Esses gestos são um testemunho da dedicação pelos excluídos da sociedade, o que deserta admiração no mundo inteiro. “Admiro o Papa por sua simplicidade e pelo respeito às diferenças entre as pessoas”, declara Rodrigo Luiz de Azevedo Nunes, 42 anos, da comunidade Perpétuo Socorro.

“Tanto o Papa quanto o santo são, para mim, exemplo de desprendimento, de estar a serviço do próximo, em nome de Deus, sem esperar por recompensa, mas pela gratidão do irmão e pelo simples prazer de ser instrumento de paz”, declara Frederico Boaventura, integrande dos Pequeninos do Senhor da comunidade Santo Antônio.

O jovem Luiz Felipe Guerra, que no Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo analisou a visão social do Papa Francisco, destaca uma das suas mensagens: “Os direitos humanos são violados não só pelo terrorismo, pela repressão, pelos assassinatos, mas também pela existência de extrema pobreza e estruturas econômicas injustas, que originam as grandes desigualdades”.

Paz inquieta
O jovem Francisco de Assis provocou questionamentos e mudanças na Igreja de sua época. O novo Papa despertou a esperança de renovação espiritual dentro e fora da Igreja Católica. No cenário mundial, vinculando tradição e modernidade, é como se os dois Franciscos oferecessem a todos uma restaurada mensagem de paz onde a guerra, a violência e o desamor se alastram aos nossos olhos.

O santo Francisco queria seguir Jesus de um modo incondicional em todos os aspectos. Um dos seus principais gestos era aproximar-se das pessoas desejando-lhes a paz. E foi exatamente com essas palavras que Jesus, após a ressureição, se apresentou aos discípulos. O Papa Francisco, em uma das suas reflexões, definiu a paz cristã como “paz inquieta”, que nos estimula a tomar iniciativas em favor de um mundo onde as pessoas se sintam acolhidas e respeitadas. Que essa inquietude transforme a todos, como Francisco, em instrumentos da Paz.