Comemorado em 13 de abril, o Dia do Jovem abre oportunidade para refletir a relação que os jovens de hoje têm com a religião

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), jovem é todo aquele com idade entre 15 e 24 anos. Na transição para a fase adulta, é comum que surjam as mais diversas dúvidas sobre o aspecto religioso da vida: Será que me enquadro nessa caminhada religiosa? Minha religião me aceita? Em que minha fé me acresce e em que me limita? Sou julgado pelas escolhas corretas que faço e incentivado a tomar caminhos errados?

Isso tudo se dá em razão da fase de transição em que se veem inseridos: não mais adolescentes incompreendidos, e também não ainda adultos formados e decididos. A juventude é realmente um período que se buscam as melhores alternativas para a construção de um futuro de sonhos e planos.

A busca pelo “encaixe”

Como jovens de hoje se relacionam com a religião? A juventude está de fato mais afastada das religiões na atualidade? Quais são suas crenças e práticas religiosas? É possível combinar liberdade de pensamento e de expressão, questionamento, atitudes que costumam ser associadas à juventude, com o rigor exigido pelas religiões e suas certezas absolutas?

Cada uma dessas questões mereceria uma discussão profunda. Muitos jovens encontram grande barreira quando da escolha da religião. Por vezes são criados em lares cristãos, ensinados a respeito da doutrina da Igreja, mas, têm dificuldades em compreendê-la como um todo, e, por vezes questionam: será que minha religião me aceita? Este questionamento é bastante comum numa fase em que se quer experimentar, conhecer e depois escolher.

A incessante busca por respostas a dúvidas e angústias existenciais, a patente abertura ao novo, a curiosidade extrema, a crítica aguçada, dentre outros fatores, são determinantes para explanar a grande quantidade de jovens que mantêm vínculos tão sensíveis com religiões. É comum nos depararmos com jovens que, num curto período de tempo, passam por diversas experiências religiosas e que se definem como “buscadores” de algo sagrado.

Nesse sentido, têm-se atentado principalmente às religiões de matriz oriental, que aumentaram sua presença no país nas últimas décadas, com espiritualidades exóticas e esotéricas, muitas vezes associadas à dimensão de autoconhecimento e terapia.

No entanto, não se deve confundir isso com descompromisso em relação à religião. Cada vez mais nota-se maior adesão de jovens a movimentos religiosos que exigem uma rígida observância de regras de comportamento, alguns, inclusive, escolhem viver radicalmente os princípios da fé, em comunidades constituídas em torno de uma identidade religiosa, tal como a Toca de Assis.

Marcas da fé

Outro fator interessante é a tendência de lançar no próprio corpo sinais de uma identidade religiosa, seja pela adoção pública de vestes diferenciadas, uso de camisetas contendo mensagens religiosas, de acessórios, como cordões e anéis, ou até mesmo tatuagens. Há um anseio em tornar pública uma religião vivida no privado.

Uma faceta também interessante dessa busca pela religião que em mais se enquadra é a tendência de formação de grupos que buscam reforçar as tradições e identidades. Tanto no catolicismo, quanto nas denominações protestantes, existem grupos que buscam a evangelização dos jovens.

Essa busca incessante por “se encaixar” pode ocorrer em diversas fases da vida, não só na juventude, mas, é nesta fase em que se intensificam as experiências, a fim de que por meio delas se chegue a escolhas existenciais importantes, como a inserção profissional, os círculos de amizade, as adesões ideológicas, políticas, a adoção de valores. A religião também é um campo de experimentação e de escolha para os jovens, mesmo que nessas áreas da vida as decisões não sejam definitivas e irreversíveis.

Podem ocorrer processos de desvinculação à religião à qual o jovem se viu inserido por sua família e a conversão a outra religião, mas, também, pode ocorrer a re-adesão à doutrina de origem, não mais por escolha da família, mas por decisão própria. Cada vez mais encontram-se indivíduos com identidades religiosas diferentes numa mesma família e vem crescendo o número de relatos de jovens socializados em lares agnósticos ou ateus que têm buscado uma vivência religiosa.

Religião e vida social

Ultrapassada a barreira da escolha da religião, é importante ressaltar os grandes benefícios que a vida religiosa traz para a vida dos jovens. O ambiente de convivência, proporcionado pela religião, cria um espaço de sociabilidade além da família, escola/universidade, vizinhança ou local de trabalho. Nesse espaço cria-se a oportunidade de conhecer outras pessoas, fazer novas amizades, e até mesmo descobri parceiros para relacionamentos afetivos. Essas motivações são secundárias, mas muito importantes para a aproximação dos jovens à experiência religiosa.

Também por meio da religião é que muitos jovens têm acesso a oportunidades de lazer: fazem passeios, acampamentos, viagens, assistem (e também participam) de espetáculos religiosos de música, dança, teatro. Outro elemento a destacar é que uma parcela significativa de jovens possui tempo disponível para dedicar a atividades religiosas, seja pelas dificuldades de ingressar no mercado de trabalho, em tempos de desemprego estrutural, seja porque ainda não possuem filhos e as responsabilidades associadas a esta situação.

A participação num grupo religioso muitas vezes permite o ingresso em redes de solidariedade que dão suporte emocional e material em situações de dificuldade. Por tudo isso, a religião pode ser um meio de os jovens ampliarem sua rede de sociabilidade e seu universo de conhecimento.

A vivência religiosa também tem outras repercussões para os jovens. Nas escolas e universidades alguns chamam a atenção por sua facilidade para falar em público, sustentar argumentações nos debates, características comuns àqueles que tiveram uma socialização em grupos políticos e mobilizações sociais. A novidade é perceber que muitas vezes essas capacidades foram adquiridas numa trajetória religiosa.

Vê-se, então, que a experiência religiosa tem outros impactos na vida social dos jovens, na adoção de determinados valores e práticas como, por exemplo, a valorização da caridade, da política, dentre outros.