Entre nós estais e não o conhecemos

Por: Paulo Soldatelli

Pesquisa aponta que há mais de 100 mil brasileiros em situação de rua

Ele tem 64 anos e muitas dores pelo corpo. Sentado próximo ao Vila Frutti, parece uma sombra do ser humano que já fora. Há mais de 20 anos veio para o Espírito Santo procurar trabalho, mas vive perambulando pelas calçadas de Vila Velha. Suas únicas posses são a roupa do corpo, o papelão que utiliza para dormir, e os materiais que cata nas ruas para vender e conseguir dinheiro para comprar um pão, um café ou, quando muito, uma marmita. Com medo de represálias, nem quis se identificar na entrevista.

Esse senhor é um dos mais de 100 mil brasileiros que vivem nas ruas. Eles sofrem o mesmo que aconteceu com Maria e José, quando entraram em Belém, procurando uma estadia: “não havia um lugar para eles”. Vivem em situação de extremo abandono social, desassistidos pelas políticas públicas. Este drama não ocorre apenas no Brasil. Em novembro passado, o Papa Francisco recebeu no Vaticano cerca de 4 mil moradores de rua, de 22 países, durante uma audiência do Ano Santo da Misericórdia. “Peço perdão”, disse ele, “em nome dos cristãos que, confrontados com uma pessoa pobre, olham para o outro lado”.

Atender os excluídos da vida social é a missão da Pastoral do Povo de Rua. O desafio é perceber os sinais da presença de Deus nas vidas de tantos brasileiros em situação de rua e desenvolver ações que visem à realização de projetos de vida para todos.

“Nas ruas falta tudo. A fome e o frio enlouquecem as pessoas, expostas à violência, exclusão e invisibilidade”, disse a irmã Solange Damião, em maio, durante a Assembleia Geral dos Bispos do Brasil. A coordenadora nacional da Pastoral do Povo de Rua lembrou que quem vive na rua é o povo que sente na pele, de forma mais intensa, os impactos da crise pela qual o Brasil atravessa. A religiosa pediu aos bispos das áreas urbanas o apoio necessário para a atuação da Pastoral, por meio de articulação de recursos financeiros e humanos, para minimizar as desigualdades na vida das pessoas, lembrando que elas também são filhas de Deus.

A proposta de trabalho da Pastoral é ajudar a Igreja a estar nas “situações mais extremas de abando social”, promovendo a “presença transformadora da Igreja na sociedade” por meio das Pastorais Sociais. A pastoral refere-se a esses brasileiros como “pessoas em situação de rua”, considerando que essa deva ser uma condição momentânea, que precisa ser superada. O trabalho consiste em conhecer essas pessoas, saber seus nomes, criar vínculos a partir da convivência com elas; muito além de dar coisas materiais, oferecer assistência afetiva, psicológica e, principalmente, religiosa.

O início de tudo

O trabalho da Pastoral do Povo de Rua (PPR) começou no final da década de 1980, mas somente em 2001 foi instituída e vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Atua junto às pessoas em situação de rua e catadores de material reciclável. O contexto social de preconceito, violência e negação de direitos em que vive a população da rua é o ambiente em que a PPR busca ser “presença de anúncio e de denúncia”, com a luta pelos direitos efetivada por meio de parcerias e na promoção de fóruns, debates e seminários para avaliar reformulações nas políticas públicas.

Nos últimos anos, a Pastoral buscou ampliar sua atuação, difundindo sua mística que aposta no protagonismo e na organização do povo da rua, de modo a alcançar a promoção social como enfrentamento à situação de violações e abandono historicamente sofrida. A primeira Assembleia Nacional da PPR aconteceu em 2012 e foi um momento importante para a articulação de equipes locais, intercâmbio de experiência e fortalecimento da metodologia. Em 2015, outra assembleia elegeu nova coordenação, mantendo como referencial o bispo Dom José Luiz Ferreira Sales, de Pesqueira (PE).

Na Arquidiocese de Vitória, a PPR existe desde 2015, quando a começou a mapear os trabalhos realizados pelas paróquias da Grande Vitória e criar uma articulação de acordo com a proposta da CNBB. Atualmente, o responsável por ela em nível arquidiocesano é Júlio Pagotto, da paróquia São Francisco, de Jardim da Penha. Ele participou do Encontro Nacional de Pessoas de Rua, em 2015, e, desde então, busca mais adesões. Hoje, seis paróquias já realizam

ações em defesa dos povos de rua: Santa Tereza de Calcutá, São Francisco de Assis, São Francisco, Sagrada Família, São Lucas e Santa Rita.

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