Renunciar

 

Por: Paulo Soldatelli

“Se alguém quiser me seguir, renuncia a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9,23).

“Se alguém quiser…”.

Ninguém é obrigado a seguir Jesus, cada um é livre para decidir qual caminho seguir. Essa é a maior prova do amor misericordioso do Pai. Ele aceita que seus filhos sigam os seus próprios caminhos, ao mesmo tempo que espera a volta do filho que se decepciona com os prazeres que o mundo oferece.

Você é um ser livre. É responsável pelas suas decisões. Seu jeito, suas atitudes, seus pensamentos, seu comportamento, tudo isso lhe pertence. O que você tem feito com isso? Como tem se relacionado com familiares e conhecidos? Como atua na escola ou no trabalho? Como é seu compromisso com a vida social e política? E é essa vida que lhe convém?

“Se alguém quiser me seguir, renuncia a si mesmo…”

Renunciar significa abrir mão de algo que já é seu. Uma pessoa só pode renunciar a um cargo público, se foi eleito ou nomeado para esse cargo. Uma pessoa só pode renunciar a um direito que já era seu.

Jesus pede para você “renunciar a si mesmo”, para deixar Deus assumir o comando da sua vida. Só assim, o seu jeito de ser será um jeito cristão de ser.

Se você quer saber quem está no comando da sua vida, faça uma avaliação: quais são suas ambições? O que você é capaz de fazer para conquistá-las? Já prejudicou alguém para conseguir o que queria? Já abriu mão de valores morais para ganhar algo?

Só Jesus foi capaz de renunciar incondicionalmente a Si mesmo. “Que não seja o que eu quero, senão o que Tu queres” (Lucas 22,42). Jesus renuncia a si mesmo por amor a Deus e ao Seu Reino, por entender que esse era o caminho para algo muito melhor: a salvação da humanidade.

Infelizmente, muitos querem seguir Jesus sem renúncias. Participam das celebrações e sacramentos em busca de bênçãos, mas não seguem o Abençoador, se consideram merecedores da prosperidade sem serem fieis às palavras de Deus. Pregam um Evangelho sem sacrifícios, onde todos querem sair ganhando.

“Se alguém quiser me seguir, renuncia a si mesmo, tome sua cruz cada dia…”

Todos nós, justos ou injustos, bons ou maus, carregamos uma cruz. Até mesmo os ladrões, na época da crucificação, carregaram suas cruzes até o monte Gólgota.

Mas carregar a cruz de uma doença, do desemprego, de um conflito familiar, não significa assumir essa cruz. Diante da cruz, muitos perdem a fé, se revoltam com Deus, se tornam amargos, pessimistas, deprimidos.

Assumir a cruz é fazer dos desafios da vida uma oportunidade de reavaliar valores, de entender o que importa nesta vida, de se tornar uma pessoa melhor. Isso acontece com muitas pessoas que têm filhos especiais, enfrentam doenças e mortes na família ou passam por dificuldades financeiras.

“Se alguém quiser me seguir, renuncia a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me”

Muitos cristãos relacionam seguir Jesus com o enfrentamento das tentações. Tentações são desejos que temos condições de realizar, mesmo sabendo que são pecados. Desde que nascemos aprendemos o que é o certo e o errado. Dificilmente alguém que praticou algo condenável, desconhecia que era incorreto.

Desejar um artista da TV, não é uma tentação verdadeira, porque dificilmente teremos a oportunidade de chegar perto dele. Por isso, esse desejo não costuma provocar ciúmes ou repreensões. O problema é quando a oportunidade de realizar algo pecaminoso: pegar algo que não é seu, se aproximar de uma pessoa com desejos sexuais, sendo casado, aceitar propinas, trair um amigo, acessar pornografia, beber ou comer sem controle, ter inveja ou rancor de uma pessoa.

As pessoas acreditam que o homem só é feliz quando todos os seus desejos são alcançados, mas nossos desejos são insaciáveis. Ceder é cair em um círculo vicioso: “Só vou roubar meu cliente hoje”, “esse vai ser meu último trago”, “só vou trair meu cônjuge uma vez”. E cedendo à tentação, nos tornamos escravos de nossos desejos.

“Logo o Espírito o impeliu para o deserto. E ali esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás” (Mc 1, 12-130) Seguir a palavra do Pai exige preparação. Jesus foi para o deserto, onde fez jejum e ficou em oração por 40 dias. Também nós precisamos da prática do jejum para fortalecer nossa força de vontade, e da prática da oração, para poder falar e ouvir a mensagem de Deus. Mas quanto mais nos aproximamos do caminho da verdade, mais Satanás nos convida a trilhar por caminhos mais fáceis.

Jesus foi tentado no deserto. Após quarenta dias de jejum, teve fome, e Satanás aproveitou para provocá-lo: “Se és o Filho de Deus, manda que essas pedras se transformem em pães”.

O questionamento de Satanás parece até lógico. Jesus era Filho de Deus, estava com fome e tinha o poder de transformar pedras em pães. Por que não realizou o milagre? Porque toda tentação é uma forma de questionar o correto: Pegar algo no trabalho é mesmo errado, se o patrão não paga o salário merecido? Adulterar com a vizinha é mesmo pecado, se o casamento está numa fase difícil? Sonegar impostos é mesmo imoral, se os políticos roubam os impostos que pagamos?

Para seguir Jesus, não podemos permitir que argumentos falsos sirvam de desculpa para comportamentos inapropriados. No deserto, Jesus não aceita testar o poder do Pai. “Está escrito”, diz ele, “não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”.

“Logo o Espírito o impeliu para o deserto. E ali esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás”

Satanás não desiste facilmente. Levando Jesus ao alto do tempo de Jerusalém, faz novo desafio: “Se és filho de Deus, atira-te daqui para baixo, porque está escrito: ” ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra'”.

Mais uma vez Jesus não cede: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”.

Satanás então muda a estratégia. Mostrando todos os reinos da terra, garante: “Se me adorares, tudo será teu”.

Jesus veio restabelecer o Reino no mundo. Ter poder sobre os reinos da terra facilitaria sua tarefa. Não precisaria morrer pela humanidade, bastaria se tornar um rei deste mundo. Mas não adianta conquistar o poder do mundo. É preciso a conversão da humanidade.

Será que nós também conseguiríamos ceder ao poder prometido por Satanás? Jesus, em sua vida pública, conheceu pessoalmente a fraqueza humana, entrou na casa de pecadores, se compadeceu com os mais fracos, e pediu que todos se colocassem à serviço dos excluídos.

O caminho da felicidade não é o poder no mundo. É a busca da justiça do reino de Deus. É preciso se afastar do que o mundo diz ser bom, para seguir com alegria o caminho da verdadeira felicidade.

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